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Antonio Camelo

 

Brazil

 

India

Chegou finalmente o grande dia, 6 de junho de 2008. Eu deveria embarcar para Lisboa, a partir do Recife às 18:30h devendo porém, chegar ao aeroporto dos guararapes com 3 horas de antecedência, com tempo de fazer o chek-in e passar pela fiscalização da polícia federal.

É marca registrada minha deixar tudo para a última hora e, desta vez não foi diferente, de forma que só consegui sair de João Pessoa por volta das 14 horas. Não imaginei que o trânsito pudesse nos atrasar mais. O taxi estava de prontidão, minhas filhas e meu neto me acompanhariam até o aeroporto.

Adrenalina a mil e partimos, saindo pelo distrito industrial em direção a Recife, não havia mais como desistir, afinal era a realização do maior dos meus sonhos! Chegamos ao aeroporto em cima da hora do check-in, tiramos algumas fotos, nos despedimos e logo me dirigi ao salão de embarque deixando minhas filhas com lágrimas nos olhos. A hora H finalmente chegara!

Para atenuar a tensão fui tomar um café expresso, quando encontrei um suiço radicado em João Pessoa que iria também para Lisboa e de lá para Zurique. Iniciamos uma conversa enquanto tomávamos o café e dali logo seguimos para o embarque. O avião da TAP taxiou, decolou tranquilamente e logo estávamos sobre o atlântico, com destino à capital lusitana.

O air bus não estava com a lotação completa, daí tive a sorte de ficar com duas poltronas só para mim. Depois de servido o jantar as usei como cama, foi muita sorte! Lá pras tantas dei uma olhadinha pela janela e pude enchergar um aglomerado de luzes, acho que seria Funchal, capital do arquipélago da Madeira. Voltei a dormir e logo estávamos chegando em Lisboa, o dia ainda estava amanhecendo, estava ainda um pouco escuro, as luzes da cidade ainda estavam acesas....

Aterrisamos com tranquilidade, desembarcamos e seguimos de ônibus uma boa distância para outro setor do terminal, depois seguimos como bois ao matadouro, chovia e fazia um pouco de frio, eu estava sem agasalhos, assim segui a "boiada" até o setor de imigração. Havia duas filas, uma de tamanho normal e uma imensa, segui para a maior, imagine como me senti naquele labirinto que lembrava um intestino! Logo percebi que a fila menor era para cidadãos procedentes de países de língua portuguesa, segui para lá, era como a fila das "pequenas compras". Daí fui abordado por um gajo que parecia ser policial que me perguntou para onde eu iria. Respondi que ia para Londres, imediatamente me pediu para acompanhá-lo, passou minha bagagem de mãp pelo raio-X e me encaminhou para o salão de embarque. Lá encontrei novamente o suiço, conversamos mais um pouco e logo anunciaram seu vôo para Zurique. Fiquei novamente só, perambulando pra lá e pra cá, até a hora do meu embarque.

Depois de cerca de 4 horas finalmente nos liberaram para o embarque, apresentamos os documentos e tomamos o ônibus que nos levaria de volta ao ponto onde desembarcamos.
Tomamos o segundo avião, um boeing um tanto surrado e decolamos para a terrinha da rainha Elisabeth II. A partir daí a língua portuguesa foi se dissipando...! A viagem foi tranquila e em mais ou menos duas horas estávamos aterrisando em Heathrow, o aeroporto mais movimentado da Europa!

Heathrow é imenso, com cinco terminais de passageiros, uma verdadeira cidade, com um sobe e desce ininterrupto de aviões de todas as partes do mundo, apenas alguns segundos entre pousos e decolagens. Desembarcamos no terminal 2 e, eu teria que ir ao terminal 4, da British Airways.
Procedi do mesmo jeito seguido o povão, primeiramente por um longo túnel, depois corredores até chegar à imigração. Adrenalina novamente, uma bateria de guichês, policiais sisudos, momento de tensão.

Eu observava tudo em 360 graus. Vi logo uma brasileira que parecia estar enrolada com o interrogatório. Logo trouxeram um policial com cara de chinês (devia ser de Macau) que logo se pôs pacientemente como intérprete. Fiquei torcendo para que quando chegasse a minha vez eu caisse no mesmo guichê. Deu errado, quando ofereci a minha vez pra quem estava logo atrás de mim uma policial disse para seguir em frente mesmo eu dizendo que não era fluente em inglês. Ela disse que não haveria problemas, se a cominicação não fluisse eles dariam um jeito. Acabei encarando uma policial até bacana. Não tivemos problemas com a língua, apenas perguntou meu destino, eu afimei que era Mumbai e ela respondeu perguntando: "Por quê não Londres?" Respondi que para Londres era complicado e a cidade era muito cara, além do que a Índia era um velho sonho. Mostrei as passagens e o passaporte e ela me liberou para a etapa seguinte.

Andei mais um pouco e chegou a hora de abrir a mala de mão. Eram três policiais com aquele fardamento preto. Abri a bagagem, eles deram uma olhada rápida e pediram pra ver o passaporte de novo. De propósito eu havia deixado o documento junto com a carteira funcional, de modo que quando olhassem para um documento automaticamente vissem o outro. Dito e feito, quando viram a funcional me perguntaram logo se eu era policial no Brasil. Disse que não, que era do Judiciário Federal. O primeiro pediu o documento e mostrou para os outros dizendo:
"Brazilian judiciary". Sorriram e logo me liberaram, daí segui para a esteira para pegar a minha mala principal, a minha cruz!

Primeiramente não a encontrei, como sempre segui na retaguarda dos outros, a maioria das bagagens já havia sido pega. Pensei logo, ou levaram ou foi extraviada, logo comigo! Olhei então para um pequeno quiosque a lado onde quem atendia era um jovem indiano. Fui logo a ele e perguntei o que fazer. Ele me perguntou de onde eu vinha e eu respondi que de Lisboa e logo ele me disse para procura na outra esteira, a danada estava lá. Sorri (por pouco tempo) e fui buscá-la!

Alegria de pobre dura pouco. A minha imensa mala estava aos frangalhos. Havia ficado na chuva por um bom tempo na troca de aeronaves em Lisboa, estava muito molhada e bastante arrebentada, quanse uma "mala sem alça"! Apanhei "aquilo" e segui em frente em direção ao terminal 4. Corredores escadas rolantes, longas esteiras, elevador e por fim um metrô interno.
Mais elevador, escadas corredores e eu chegava ao meu destino onde ficaria por cerca de nove horas.

Como aquele troço estava com excesso de peso fui direto aos guichês da British Airways para saber se passaria no check-in sem problemas. Para fazer isto tive que deixar a mala sozinha, embora bem próximo, quando o atendente me advertiu para correr e apanhá-la imediatamente
se não seria vista pelas câmeras e os policiais logo a recolheriam. Fiz o que ele mandou e em seguida imprimiu um papel dizendo que eu não iria ter maiores problemas com o peso excedente. Agradeci e segui em frente.

INDIA.CAM/0

Hindu, minha linda hindu,
Que nasceu em Caalcutá,
É melhor ser minha esposa,
Do que ser escrava de um Rajá.....

Assim começava uma antiga musiquinha de carnaval, que minha mãe cantava no início dos anos cinquenta, na pequenina cidade paraibana de Bananeiras, onde nasci, mostrada nesta fotografia, ainda hoje apenas uma cidadezinha!

A música falava de um difícil amor entre uma jovem indiana de alta classe e um intocável, um pária, a classe mais inferior da sociedade indiana. Foi assim que tive o primeiro contato com a Índia e que, não sei por qual motivo se tornou uma paixão!

 

 

Passaram-se alguns anos quando comecei a frequentar a a escola primária e lá vem Índia de novo: O caminhao marítimo para as índias, especiarias da Índia, companhia das índias orientais, cravo da índia, etc, etc.

Quando estava com 14 anos, meu pai vendo meu interesse pelos livros, me deu de presente um, já usado, de geografia geral, de Aroldo de Azevedo, desatualizado, pois estávamos no ano de 1963 e o livro era de 1943. Por falta de condições, adquirido em um "ferro velho" na feira livre do bairro.

Sempre tive interesse por geografia política e social, e lá estava a Ásia e sua diversidade. Novamente encontro a Índia e seus encantos, em velhas fotos em preto e branco, em clichês de péssima definição. Me impressionei com Benares (hoje Varanasi), estava iniciada minha paixão!
Fiquei adolescente, casei, tives filhos e a Índia não me saía da mente. Li artigos, assisti a vários filmes, vi Mogli "o menino lobo", documentários, relatos de viagem, etc.
Um dia quando já morava em São Paulo, trabalhava em uma empresa de eletrônica, conheci a revista Nathional Geographic, ainda em inglês, através do meu diretor, um argentino, doente como eu por conhecimento, que era assinante. Adorei a revista e, quando um dia ele deixou a empresa, eu fiquei recebendo o restante da assinatura. Foi numa dessas edições que encontrei o artigo "INDIA BY RAIL", onde um jornalista contava a travessia que fez do país desde o Paquistão até Bangladesh. Foi um tiro de misericórdia, apartir de então a paixão cristalizou-se tornando-se quase uma obsessão!
Daí em diante a coisa pegou, mas somente em 1993, quando eu já era funcionário público que comecei a sonhar com a possibilidade de viajar para este lugar tão especial. Primeiro encontrei em uma página de turismo de um jornal do sul uma reportagem muito boa, que falava até dos custos.
Após a leitura, vi que a coisa era tangível e comecei a me preparar, buscando mais e mais informações, foi quando surgiu a INTERNET e, de repente a coisa ficou bém mais fácil.
Foi a maior garimpagem cibernética nos últimos dez anos. Tentei fazer amigos nativos a qualquer custo, mandan0do e-mails aleatórios pra todo lado. Não foi tão fácil assim, por questões culturais e diferença de idade alguns respondiam, timidamente e após algumas mensagens desistiam. Makrina Benjamin, este ficou na história, até hoje eu não sei se era homem ou mulher!
Minha intenção era usar o estado de GOA como portão de entrada, tendo em vista o fato de ter sido uma colônia portuguesa por mais de 400 anos e, além do clima que evoca muitas lembranças do Brasil.
GOA foi tomada pela Índia em 1961 quando a língua portuguesa foi abolida das escolas e por esta razão hoje, apenas as pessoas de idade avançada ainda falam o português. É só olhar nos obituários dos jornais locais que se vê quase todos nomes portugueses.
O primeiro amigo real ( e virtual) foi o sr. Estevam Dias, funcionário aposentado do NIO, National Institute of Oceanography, cuja sede é em Goa. Depois viriam Sarojini Sahoo, minha grande amiga o estado de Orissa, no leste. Sarojini é uma conhecida escritora feminista, a Simone de Bovoir indiana, Mohamed Irfan, homem de negócios de Chennai (antiga Madras), mais dois jovens irmãos, Amit e Manish Kulhari, que conheci através do ORKUT, internautas e web designers do Rajastão, mas que vivem em Delhi e, finalmente Edson, um brasileiro que estava em trabalho missionário voluntário em Dharamshala, no norte.
Uma vez estabelecidas estas amizades chegou a hora de fazer o roteiro da viagem que eu tinha dúvidas por onde começar.
Como havia sido convidado pelo sr. Irfan para o casamento do seu filho Husman, havia uma data amarrada, no dia 14 de julho de 2008 eu deveria estar em Chennai para assistir a esta cerimônia islâmica, coisa que muito me interessava! Ao mesmo tempo deveria estar em Orissa a tempo de pegar minha amiga ainda de férias, pois ela também é professora de literatura em uma universidade local. Daí saiu o balizamento do roteiro e do tempo para a aventura acontecer, considerando obviamente as estações do ano, pois lá é hemisfério norte e é tudo o inverso daqui. Teria que evitar então o calor extremo do verão, as monções com suas enchentes e as neves do norte!
Gostaria de dizer que conheci o sr. Estevam Dias através do sr. Blasco Fernandes, seu colega de trabalho, muito gentil mas que não fala português. Ele repassou o meu e-mail e dias depois sr. Estevam se apresentou, dizendo que eu poderia contar com seu apoio. Muito bom!
Interessante é dizer que o estado de GOA é o menor estado da Índia, com apenas 3.700 quilometros quadrados, ou seja menos de 1/15 da área da nossa pequena Paraiba, mas que tem mais ou menos a mesma população e, onde são faladas 5 línguas: hindi, konkani, ingles, marati e português. Assim vai se conhecendo a Índia!
Dois pontos eu ainda precisaria amarrar, o tempo e o dinheiro. Quanto ao roteiro eu já estava certo. Deveria desembarcar em Mumbai (ex Bombaim) e dali seguir de trem até Goa. De Goa, sempre no sentido anti horário, para Chennai, depois Orissa, Varanasi, Agra, Delhi, Dharamshala e cidades do Rajastão, fechando o círculo em Mumbai de onde retornaria ao Brasil. Este era o plano.
Tinha certeza de que Deus estava comigo pois conspirou para que tudo desse certo. Meu filho mais velho e meus amigos próximos diziam que era uma loucura o que eu estava fazendo, uma viagem tão longa para um país tão distante, para me encontrar com pessoas que eu havia conhecido apenas pela internet, sem nunca tê-las visto pessoalmente! Eu comigo mesmo achava que "o risco que corre o pau corre o machado", pois a recíproca era a mesma, eles também não me conheciam pessoalmente, sendo eu do mesmo modo também um estranho para eles.
Coisas de Deus. Quando finalmente decidi que faria a viagem fui surpreendido com a solidariedade dos colegas de trabalho. Foi emocionante, primeiramente Ciro me fez a doação das passagens aéreas Recife-Lisboa, Lisboa-Londres e Londres-Mumbai. Em seguida Gibson me ofereceu 1.500 euros para os gastos pessoais para eu reembolsá-lo em 10 vezes, sem juros e finalmente Ricardo me deu uma sobra de dólares da sua última viagem. Assim sendo só tive que preocupar com as passagens de retorno. Foi ou não foi uma benção dos céus?!
Enfim tirei o passaporte, providenciei o visto de entrada, comprei as passagens e iniciei a contagem regressiva......
Estamos na era da INTERNET, daí a opção de India.cam, isto mesmo, não .com, para fazer uma alusão ao iníco do meu sobrenome CAMELO, a Índia por Camelo!

Pretendo neste blog contar a realização do meu maior sonho que foi uma visita à INDIA, fato ocorrido entre 26 de maio e 6 de agosto de 2008.

Um sonho, realizado a duras penas depois de uma paixão de toda uma vida e um desejo de mais de 15 anos!

Para levar a cabo minha empreitada, contei com o apoio de grandes amigos, especialmente colegas de trabalho que como cada um sabe, deram suas prestimosas colaborações. Sem querer cometer injustiça com os demais, gostaria de agradecer imensamente a Claudenes, Ciro, Gibson, Ricardo e o chefe Roberto Mousinho além de todos os outros que aqui ficaram me acompanhando pela WEB como o grande amigo Leôncio, meus amigos de Orkut e meus familiares, a quem dedico estas linhas e as seguintes.
A foto acima mostra um momento de grande ansiedade no Aeroporto dos Guararapes, em Recife, momentos antes do embarque!

Um beijão para todos.

 

© 2008 Antonio Camelo .. All rights reserved